Ontem, assisti ao filme “Para Sempre Alice”, e fiquei profundamente tocada com a história.

Tive que esperar um tempo até poder sair da sala de projeção ao final do filme, um tempo necessário para que minhas lágrimas parassem de correr, para que eu me recuperasse um pouco do impacto das lembranças de minha própria experiência.

Lembrei do que vivi com meu pai, que se foi por conta do Alzheimer. Lembrei da dor imensa, das dúvidas, das noites em claro, da minha cabeça girando, dos momentos de angústia e impotência.

A doença vai levando a pessoa embora aos poucos – como o filme mostra - vai tirando quem a gente ama de cena, dia a dia, minuto a minuto. É algo dramático, que deixa a gente de mãos vazias e sem saber o que fazer.

Lembrei da memória de meu pai se apagando, de sua voz sumindo até desaparecer por completo, de quando ele começou a não mais me reconhecer, de quando me olhava sem saber que ali estava sua filha, e de alguns preciosos instantes em que o Alzheimer lhe dava uns poucos segundos de trégua, e eu o via me reconhecer rapidamente, e me olhar com um ar de puro espanto, abrindo um sorriso breve, com um resto de brilho no olhar.

Eu suspendia minha respiração nesses raros instantes, porque sabia que ali estava de volta meu pai, meu velho pai e seu amor de sempre.  Ele enchia os olhos de lágrimas e me olhava profundamente, enquanto apertava minha mão com o fio de força que lhe restava.

Isso durava apenas alguns segundos e, de repente, como num passe de mágica, ele ia embora novamente. Seu olhar perdido voltava, e o que sobrava era só meu coração aos pedaços.

Um dia, ele não falou mais, nem sequer me olhou mais, e o brilho se apagou de seus olhos, embora seu coração ainda batesse. O Alzheimer o havia levado para longe e, a partir daí, só me restava ficar ao lado dele, beijando sua mão, afagando seus cabelos de neve, ou cantando baixinho, na esperança de que ele ao menos me ouvisse.

Eu sentia uma solidão imensa dentro do peito, mas foi isso o que fiz até seu último dia de vida.

Um dia, meu pai fechou os olhos para sempre, e gosto de pensar que ali ele se libertou.

 

O Alzheimer o levou embora, mas uma coisa é certa... Ele pode levar as lembranças, a força e até a vida, mas não é capaz de levar o amor.



Escrito por Vera Nunes às 12h15
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