Mais uma lágrima

 

        Todos os dias tomamos conhecimento ou mesmo somos personagens de incontáveis casos de acidentes, atropelamentos, desastres e mortes no trânsito.

        Muitas vezes, as histórias são tantas que é difícil nos lembrarmos direito das que aconteceram ontem ou anteontem, simplesmente porque os casos se multiplicam de maneira vertiginosamente veloz.

        O trânsito se transformou em mais um componente da guerra urbana em que vivemos. Deste modo, vidas vão sendo ceifadas, enquanto o perigo nos segue pelas ruas o tempo todo.

        Quando nos referimos ao trânsito, porém, parece que nos referimos a uma entidade sem rosto ou definição clara, um elemento que funciona separado de nós.

        No entanto, esta palavra tem a ver com pessoas, seres humanos dirigindo carros, no controle de um volante, aparentemente dotados de um mínimo de capacidade para realizar movimentos, agir com bom senso e responsabilidade e tomar decisões.

        O tal trânsito é composto por pessoas como eu e você, pessoas de carne e osso que podem a qualquer momento se ferir, sangrar, sofrer e morrer, mas também por pessoas que podem ferir alguém, fazer sofrer, fazer sangrar e matar.

        De um tempo para cá, casos de pessoas que bebem e dirigem se multiplicam alucinadamente nos noticiários, gente que não se incomoda de assumir um volante, literalmente arriscando que esta decisão aparentemente simples – na cabeça de quem não se importa – provoque mais uma tragédia.

        Pessoas que parecem não levar em consideração que o álcool deturpa o raciocínio, embota a razão, anuvia a visão e nos tira a capacidade de ter nossos reflexos em pleno funcionamento.

        Em muitos casos, vemos pessoas brincando com a situação, dizendo que “dirigem melhor” quando bebem, tratando com descaso a preocupação de muitos com o perigo a que o trânsito nos expõe o tempo todo, achando que são donas de suas vontades e que, portanto, têm o direito de arriscar suas vidas e a dos outros.

        As leis são frouxas e abrem brechas enormes para que pessoas que abusaram da bebida se recusem até mesmo a soprar o bafômetro, ou fujam do local de um acidente sem prestar socorro às vítimas. Basta apenas que quem causou o acidente se apresente no dia seguinte, preste um depoimento, e saia da delegacia pouco tempo depois, pela porta da frente, já que não houve “flagrante”.

        Assim, são estas as leis que deixam impunes pessoas irresponsáveis que destroem famílias inteiras.

        E com a morte logo ali, no asfalto, se vão histórias, sonhos, desejos, projetos de vida, planos...

        Pessoas que agem assim têm alguma consciência?

        Pensam em algo que não seja elas próprias?

        Que egoísmo monstruoso é esse que toma essas pessoas fazendo com que nem sequer pensem que ali na rua ou atrás da direção de outro carro venha um pai voltando para casa depois de um dia duro de trabalho, ou a garota alegre que foi com a mãe fazer compras, ou a criança que anda distraída, ou o jovem que sorri sozinho enquanto caminha, com a cabeça cheia de planos?

        Até quando vamos ver pessoas que perderam seus entes queridos chorando, com o rosto em close na tela da TV, mostrando toda sua dor e vulnerabilidade, clamando por justiça, impotentes diante das tragédias?

        A palavra que mais se ouve saindo da boca de quem perde seres amados é “justiça”. E o que mais dizer numa hora de dor assim?

        Se a gente pensar, não vai encontrar outra palavra que a substitua...

        Junto ao pedido por justiça vem um grito abafado de socorro, de tristeza, de indignação, de incredulidade, de pesar, de luto, de ajuda. Clamar por ela é o máximo que conseguimos fazer quando a dor leva embora nossa força!

        As campanhas pela direção consciente estão por toda parte.

        Todo cidadão mais atento sabe, sim, que álcool e direção não combinam - como diz a campanha publicitária - mas todos os esforços parecem ainda insuficientes para sensibilizar quem não se importa nem um pouco com a ideia de que agindo assim, pode provocar um acidente e matar alguém.

        Talvez o pensamento de uma pessoa que age dessa maneira seja o de que tragédias só acontecem com o outro, que a morte só leva os entes queridos do vizinho, que nada de ruim vai acontecer se ela se embriagar e dirigir...

        Penso que qualquer pessoa que costuma agir de modo totalmente irresponsável no trânsito, sem se importar com o mal que possa causar, deve também pensar algo assim, diante da notícia de mais uma tragédia: “Tudo bem, afinal de contas, não foi comigo nem com ninguém da minha família mesmo!”

        E assim, cada dia mais lágrimas são derramadas por quem perde alguém querido desta forma, e elas continuam a brotar porque ainda existem por aí pessoas egoístas, que brincam com a vida, que simplesmente não acham nada demais se embriagar e sair por aí dirigindo um automóvel, enquanto qualquer um de nós pode ser o próximo alvo. Afinal, o que é que tem?

        Tem que seres humanos estão se acidentando e morrendo.

        Tem que o trânsito de nosso país mata muito mais do que muitas guerras pelo mundo.

        Tem que quem fica tem que passar pelo doloroso processo de reaprender a viver sem seus entes queridos.

        Tem que essas pessoas que se foram tinham família, sonhos, projetos e uma vida pela frente, não importa que idade tivessem quando se foram.

        E agora?

        Quem tem um pingo de consciência precisa ajudar a sensibilizar outras pessoas, jovens, crianças, adultos, para que a corrente do bem se estenda, fazendo com que, um dia, a gente possa ter um bocado a mais de paz e de segurança.

        Mesmo que as notícias absurdas e cruéis nos tirem a força muitas vezes, vale a pena cada gesto de bondade, de ajuda, de esforço para que este quadro terrível mude.

        Estamos o tempo todo nos movimentando pelas ruas de nossas cidades, dirigindo carros, dentro de ônibus, metrôs, pedalando, caminhando e, portanto, cada um de nós é responsável por uma parcela do trânsito.

        A responsabilidade não está só nas mãos do outro, mas nas nossas também, e é por este exato motivo que cada perda é um pedaço de cada um de nós que se vai, queiramos admitir isso ou não.

        Portanto, vamos todos lutar pela vida, gente!

        E quem sabe chegue o dia em que as lágrimas sejam mais de alegria que de dor?



Escrito por Vera Nunes às 16h40
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Mulher


Histórico
Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
mothern
observatório da infância
morandini
projeto laços da rede
esporte
poemas
fotografia
shantala
música
produção de fotografias