Imagem é tudo?

 

     Vivemos um tempo confuso, onde valores humanos importantes têm sido constantemente deixados de lado.

     Vivemos um tempo meio sem identidade, que supervaloriza a “imagem”, a marca, a etiqueta, o invólucro. Tempo em que em muitos contextos, ter significa muito mais do que ser.

     Hoje a mídia esbanja produtos especialmente elaborados para atingir em cheio o público infantil, funcionando como um verdadeiro canto de sereia, atraindo os olhos e a atenção dos pequenos para tênis, roupas, celulares, maquiagem e uma infinidade de objetos e acessórios de todos os tipos.

     Mas vamos parar este alucinado carrossel por um momento e pensar um pouco: será que não é hora de revermos alguns conceitos?

     Será que vale qualquer coisa que faça crianças, pré-adolescentes e adolescentes serem tragados pela espiral do consumo desenfreado, fazendo-os entrar na fila de zumbis modernos que adotam para si o espírito de manada?

     Nada contra, absolutamente, a garotinha que quer ficar bonita numa roupa legal, ou o garoto que quer ter um acessório bacana. 

     O sinal amarelo acende quando percebemos que isso passa a ser o centro da vida deles, chegando a substituir brincadeiras, passando a ser o foco principal de suas conversas e de seu comportamento.

     Se o princípio se torna esse, é de se supor que muitas crianças e adolescentes passem a discriminar quem não anda na moda ou não possui esse ou aquele objeto.

     E isso é grave, muito grave.

     Assim sendo, uma nova geração de pessoas preconceituosas vai se formando, mais uma leva enorme de pessoas que olham as outras de cima a baixo, segregando quem não possui o mesmo status, como vemos com mais frequência do que gostaríamos. 

     Quando nos damos conta de que crianças e adolescentes já se portam como se não existisse vida longe do que é moda, algo precisa ser seriamente reavaliado.

     E digo isso não só em relação ao que a mídia veicula, mas também sobre a maneira como inúmeros pais e responsáveis estimulam esse consumo, se desdobrando para dar aos filhos tudo o que lhes é possível, sem conseguir dizer um não que coloque limites sadios e sensatos na vida de crianças e adolescentes deslumbrados pelo vasto e atraente cenário consumista.

     Há algum tempo li numa revista de circulação nacional uma matéria que tratava justamente deste tema.

     Abaixo da foto de uma mulher e uma menininha, no enorme e super bem abastecido closet de sua casa, a frase: “Minha filha dá escândalo se compro alguma roupa que seja de grife diferente das que ela gosta, ela tem muita personalidade”.

     A idade da garotinha? Três anos.

     Consumo não pode valer como palavra de ordem, gente. Ele deve ser sensato, pensado e os pequenos precisam aprender isso desde cedo.

     No universo do consumo sem critérios o que é moda hoje, mês ou semana que vem já virou velho e deve ser facilmente substituível. Já não é mais fashion usar ou ter aquilo porque já surgiu algo mais novo, realimentando esse vertiginoso e insaciável mundo paralelo.

     Quase tudo virou descartável e precisamos estar muito atentos para que isso não aconteça também com nossos afetos, com as relações humanas.

     Agora olhe as fotos acima.

     O nome desta menina linda é Thylane Lena Rose Blondeau, em poses para a capa de uma famosa revista de moda. Ela tem 10 anos e trabalha como modelo desde os 4 anos.

     A beleza dela ninguém discute, isso é óbvio. O que devemos pensar é que se trata de uma garotinha de apenas 10 anos usando roupas provocantes, com ar sexy, vestida com peles e adereços que já pesariam numa modelo adulta.

     Prestem bem atenção: Thylane tem 10 anos.

     O que sugiro com este texto é apenas uma reflexão.

     Não pretendo levantar bandeira alguma aqui. Quero apenas jogar uma interrogação no ar, pra que a gente não perca o fio do que é realmente importante para que uma criança cresça de modo emocionalmente saudável.

     Já está mais do que na hora de ensinarmos às crianças e adolescentes que é legal ser bonito fisicamente, mas que esta condição não se sustenta sozinha.

     É preciso ser decente, ter respeito pelas pessoas e por si mesmo, ser amigo, ter bom coração. Principalmente, é preciso que ensinemos a eles que as pessoas, na verdade, devem valer pelo que são, e não pelo que conseguem e podem comprar.

     Só assim vamos dar a eles o maior tesouro dessa vida: crianças e adolescentes crescendo com a cabeça boa, livres da prisão que o consumo sem critérios vai criando em torno dos que se deixam levar por ele.

     É claro que é legal ficar mais bonito, arrumado, perfumado, quem não gosta? Mas tudo isso não é nada, se pensarmos que uma linda casca pode estar cobrindo alguém vazio por dentro.                  

                                                                                                                            Vera Nunes  



Escrito por Vera Nunes às 12h03
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Os dois títulos acima: "Pra Gente Grande Entender Melhor a Criança" - 2003/ 2ª Edição - e "O Papel das Emoções na Educação" - 2009 - de autoria de Vera Nunes acabam de ser lançados no formato "e-book".

Para mais informações, acesse o site:

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Atenção!

Vera Nunes ministra palestras e cursos em escolas, empresas e instituições sobre estes e outros temas.

Informações:

nunes-vera@uol.com.br

 

 



Escrito por Vera Nunes às 08h56
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